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O projeto de ensino, pesquisa e extensão Interseções da Arte busca estabelecer um diálogo entre as práticas artísticas contemporâneas e o ensino da arte. Sua atuação foca o ensino básico e a formação docente em artes.

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No contexto artístico atual são notáveis a efemeridade e imaterialidade da obra, a saída do artista do ateliê, dos museus e galerias, a ampliação da prática do artista para outros campos do conhecimento, a produção de propostas coletivas, a solicitação da participação do público, entre outras. Neste processo encontram-se a pesquisa pessoal e a descoberta de sua própria poética como forma de ressignificar o “estar no” mundo, e de perceber as possibilidades a partir do que nos é dado.

O artista trabalha na dialógica das relações, ocupando outros espaços de forma crítica e lidando com a alteridade. A experiência com o outro, muitas vezes, é a sua própria atuação artística e seu registro – a marca que fica, em cada parte, deste encontro. Em meio a caminhadas, deslocamentos e ocupações de novos lugares, a partir da coleta de experiências, objetos, relatos, imagens, constroem um amálgama simbólico. Na medida que artistas e coletivos atuam diretamente nas estruturas sociais, propõem uma reconfiguração do sensível sem uma mediação necessariamente marcada por determinado aparato material (ou obra), ou institucional. Os locais da arte, por excelência, dissolvem-se nestas ações no espaço-tempo do “estar atento”. Propõem-se, então, residências artísticas, oficinas, ocupações de locais públicos, ateliês / galerias ambulantes que se tornam continentes destas experiências.

Este contato direto com o público na concretização de uma proposta artística reafirma a proximidade entre práticas artísticas contemporâneas e práticas educativas. Em alguns casos, resta mesmo a dúvida sobre uma possível dissociação. E, ao se admitir que tais práticas caminham junto com a educação, quais reflexões podem se abrir ao campo da educação? Na existência de uma abordagem semelhante à estabelecida na área da educação, de um diálogo com o outro, e de uma proposta conjunta, reside a dificuldade em determinar a linha que une e separa estas duas áreas.

Embora existam algumas reflexões no sentido de entender / problematizar a relação artista público x educador público (estudantes e comunidade escolar) e devendo estar a prática educativa, sobretudo aquela realizada na escola, em constante revisão, é relevante perceber, por vezes, as contribuições postas para e por ambos os campos do conhecimento.

Nesta perspectiva são reforçados alguns conflitos e oposições presentes na arte e seu ensino: o local de trabalho fixo da sala de aula ou ateliê x o universo de possibilidades do artista / educador; o processo de aprendizado ou o processo de elaboração da obra x a exigência de um produto final material (a obra); trabalho individual x processos colaborativos; setorização das disciplinas e “fechamento” da arte x interdisciplinaridade e construção conjunta com outras áreas do conhecimento.

Assim, neste panorama em que se vê uma ampliação de propostas artísticas, sobretudo nos últimos 50, e uma ainda incipiente abertura do ambiente escolar para propostas distintas daquelas realizadas no espaço da sala de aula ou que visam um produto final perene, torna-se importante a reflexão e o estabelecimento de um paralelo entre alguns artistas e coletivos, e a prática do ensino de arte.

Na perspectiva de compreender a arte como uma prática pedagógica, muitas perguntas devem ser formuladas: Como trazer a alteridade observada na atuação artística para o ambiente institucional escolar? Considerando que a proposição artística cada vez mais busca o contato com o outro e o não distanciamento do cotidiano, de que forma a escola pode dialogar com o seu extramuros? Qual a serventia do que se aprende? Como responder a este movimento de aplicar o conhecimento ao cotidiano, evitando a dissociação entre “educação e vida”? Uma vez que a configuração do ensino em um estabelecimento formal de educação gera, por vezes, uma anestesia no estudante como membro ativo da sociedade, como reanimá-lo enquanto agente social? E, ainda de que forma algumas práticas dão subsídios para se pensar a arte e a educação havendo uma mútua apropriação de propostas? E por fim, quais ações desenvolvidas no âmbito escolar têm livre trânsito no universo artístico e vice-versa?

Estabelecer este diálogo torna-se necessário já que vivemos cada vez mais em meio a formas, imagens, símbolos e demais apelos visuais, elementos tratados por excelência na disciplina de artes visuais. Além disso, assusta-nos propostas de lei como a Escola Sem Partido que, entre outros, priva o professor de sua atividade pedagógica. Estabelecer um posicionamento crítico frente a estes elementos, fatos cotidianos e ao espaço no qual estamos inseridos, e realizar uma reflexão sobre formas de ressignificá-los é uma das possibilidade de ação da arte e da educação sendo trabalho frequente de artistas e professores. Trazer à tona, portanto, uma sensibilidade possível em meio a tanta anestesia dos sentidos e informações que nos chegam já digeridas, é o foco deste projeto.

Entender, por fim, a aula de artes visuais como um espaço de conteúdo e construção de linguagem e leitura de mundo em diálogo com outras áreas do conhecimento, mais do que um espaço de realização de exercícios formais, é aproximar o ensino da arte da produção de arte contemporânea. Tal percepção potencializa a abertura da escola para o cotidiano tendo a arte como um dos seus mecanismos, entendendo a atuação da instituição escolar nas estruturas sociais.

 

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